quinta-feira

Burocracia para regularização de CPF e IPTU – a saga



O governo pediu-me que o avisasse que estava vivo. Não avisei. Cancelaram meu CPF. Engraçado, pra cobrar imposto, os governantes têm certeza que morto eu não estou. Os ministros me tratam como vivo ou morto quando eles bem entendem.
Liguei para o 0300 da Receita Federal. Na URA, aquela gravação que a gente ouve, fui informado que me cobrariam 40 centavos + impostos a cada minuto da ligação. Como se não bastasse ter que pagar por um serviço público que já pagamos, inclusive, fui informado também que havia fila no atendimento e que eu teria que esperar pelo menos, oito minutos. Vamos lá, regrinha de três: só pra esperar eu gastaria R$ 3,20 + impostos. Tá bom, 4 reais. Desliguei o telefone, óbvio.

Fui à Receita. Lá me disseram que eu teria que regularizar meu cadastro na Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil ou Correios.

Fui sofrer.

Cheguei à maldita Caixa Econômica, 09h50min da manhã, verão, calor frenético e uma fila de virar a esquina. A burocracia adora essa cena. Fui ao Banco do Brasil. Péssima idéia. Fui à primeira agência dos Correios.

A funcionária - Você tem que preencher um formulário e dar entrada com pedido de regularização.
Eu - Paga?
Funcionária - Sim, R$ 5,50.
Eu – Tudo bem. Quero um.
Funcionária - Senhor, desculpe, mas estamos sem formulários.
Fui aos Correios mais próximo. Tinha formulário. Preenchi.
Funcionária - Senhor, “se” esqueci de lhe dizer, mas vai levar em torno de 15 à 30 dias para regularizar a sua documentação.
Eu - Meu Deus! Tudo isso?
Funcionária - Sim. Caso o senhor não “quiser” esperar, vá aos Correios central e faça on line. Lá, é em até 48 horas.
(Ó Deus. Ó céus!)
Fui aos Correios central. Havia 30 pessoas para duas atendentes, que mais pareciam moscas de padaria. As moscas de padaria são os seres mais estáticos que eu conheço. Como eu tinha compromisso, fui embora.

No dia seguinte, acordei mais cedo e voltei aos Correios. Dirigi-me ao segurança. Sim, segurança. Além de vigiar, eles são usados indiretamente como um ambulante “posso ajudar?”.
Eu - Por favor, onde eu pego a senha para cadastro de CPF?
Ele - Pra CPF? Sinto muito dizer, mas o serviço automático está fora do sistema.

A burocracia do governo é a lei de Murphy.
Saí dos Correios e dei um pulo na prefeitura para apanhar um documento de IPTU que estava há mais de um mês para ser digitado! Pra completar, a responsável pelo setor tinha morrido. Setor público, você sabe, né, pára tudo! É tal do ranço. Dirigi-me à balconista do setor que me informara que o meu processo ainda estava em andamento como constava no maldito computador dela. Não corroborando, porém, com a realidade, o que faltava era a bendita da digitação. Enfim, nada resolvido. One way around, one way up! Pedi que chamasse o responsável pelo setor de digitação, se é que aquilo existia.
Eu - Por que o meu documento está levando um mês para ser digitado?
Responsável - Olha moço, uma pessoa está grávida e doente, e a outra está de férias.
Depois de alguns questionamentos, o responsável então me garantiu que resolveria meu problema urgente. Antes de voltar à prefeitura num outro dia, liguei para os Correios para não dar viagem perdida. Após inúmeras tentativas sem que ninguém me atendesse, uma “songamonga” mal educada me atendeu, confirmando o que eu já esperava: fora do sistema outra vez! Fui à prefeitura. Segundo a balconista, daquela vez, quem estava doente era o responsável, pior, ninguém tinha o contato dele e muito menos sabiam onde estava o documento digitado. Prometi a mim mesmo que não voltaria mais àquele lugar. No mesmo dia, mais tarde, o tal doente liga pra minha casa se desculpando, dizendo que já estava melhor.
Dia do milagre!
Os Correios abriria às 09h00. Saí de casa derrotado. Eu tinha de viajar às 10h30min. Impossível ir aos Correios e apanhar o documento na prefeitura em menos de 1h10min. Acabei me atrasando e por fim cheguei aos Correios às 09h30min. Quando eu entrei, um outro “posso ajudar?” bem antipático, me recebeu sem sequer um bom dia, já me perguntando se eu estava com CPF, título e identidade. Ao apanhar a senha, percebi que só havia três pessoas na fila! Em menos de 20 minutos eu já tinha saído com o CPF às 48 horas de ser regularizado. E mais, o sol escaldante tinha sido amenizado pelas nuvens que apareceram do nada, fornecendo-me sombra até a prefeitura.
Ao chegar, só ouvia a balconista dizendo aos contribuintes: “volta no outro mês, senhora”, “sinto muito senhor, só daqui há 15 dias”. Transpirei. Chegou a minha vez. Fui atendido por uma moça simpática, que me entregou os documentos digitados e assinados!
Na viagem, refleti sobre toda a minha jornada, minha saga, peregrinação que é depender do serviço público de um país de terceiro mundo que ama burocracia. Tem juiz que ignora indenizações por estas reclamações, por achar que o povo só está a fim de ganhar dinheiro. Além de ser ridículo, não condiz com a realidade. O brasileiro quando freqüenta uma fila segurando a senha de número 784 na Caixa Econômica Federal, perdoa tudo quando aparece um funcionário oferecendo um cafezinho ou uma água, o tempo vai passando, e ai ele acostuma. A violência é assim mesmo, a saúde é assim mesmo, a corrupção é assim mesmo e as filas também. Vi, sobretudo que o problema na prefeitura era a falta de vontade, e aprendi que, para o governo, nós, contribuintes, estamos fora do plano, de prioridade e, iguais aos Correios, fora do sistema!