A psicologia do óbvio
Vamos lá. Eu convido você para uma pausa para observações curiosas e depois gostaria que quando você fosse ao supermercado, praticasse um pouco sobre o que vou lhe dizer agora.
Vamos lá. Eu convido você para uma pausa para observações curiosas e depois gostaria que quando você fosse ao supermercado, praticasse um pouco sobre o que vou lhe dizer agora.
Os rótulos de uma grande parte de produtos que são vendidos em supermercados, farmácias etc., possuem astutas armadilhas, com suas bocas abertas a espera de um deslize. Quando a vítima dá uma bobeira eles a engolem. Igualzinho como é a vida no fundo do mar. É assim que o mundo selvagem funciona. Quanto mais informado fica o consumidor, o marketing incompetente é eliminado, sobrevivendo os mais fortes, os mais espertos, os que vendem mais. Isso me faz lembrar quando certa vez fui visitar o agradável museu do perfume, em Curitiba, que tinha a proposta de contar cinco mil anos da história da perfumaria no Brasil. Lá havia um arquivo em áudio, de várias propagandas antigas, dos anos 40, 60, por exemplo, de vários sabonetes, e perfumes. Como as pessoas naquela época possuíam fontes de informação bem mais limitadas, muitas não tinham televisão, inúmeras mulheres não seguiam seus estudos e se acomodavam com as tarefas domiciliares, época em que internet nem se passava pela cabeça, enfim, era mais fácil iludir principalmente as consumidoras com propagandas de sabonetes contando um monte de mentiras, cremes que prometiam o céu e a terra.
Hoje as mentiras estão mais científicas, tecnológicas. Você já comprou um shampoo à base de DNA vegetal? Para que vai lhe servir um DNA de uma planta ainda mais na cabeça? Já pensou se esse DNA for de uma trepadeira!
Além disso, o jornalista Manuel Alves Filho, preparou uma importante matéria publicada no site do jornal Saúde em Movimento, baseada numa matéria do jornal da Unicamp, onde segundo a professora Inés Joekes, do Instituto de Química da Unicamp, é impossível oferecer nutrientes à uma estrutura morta – o cabelo. A falta de base científica por muitas empresas que ateste seus produtos é muito grande. Deixar também cabelos mais brilhosos não significa que eles estão mais nutridos. Segundo ela, quando queremos dar brilho a um piso ou móvel, o que fazemos? Ora, passamos cera. Com os cabelos é a mesma coisa.
Um outro fato curioso são as pastas de dente sabor açaí com guaraná. Eu fico matutando: o que eles queriam com isso afinal? Será que os praticantes de atividade física vão querer comer os tubos? Será que vão pensar que seus dentes e gengivas ficarão mais encorpados?
Certo ano, fui participar de um congresso latino-americano sobre assuntos alimentar e questionei num seminário sobre certificados e rastreamento, a clonagem dos números do SIF por empresas corrompidas. SIF significa Serviço de Inspeção Federal, que tem como objetivo inspecionar todos os produtos de origem animal, processados em estabelecimentos devidamente registrados e comercializados no Brasil. Se uma empresa copia esse registro, sabe lá Deus como são criados e abatidos seus animais. Já cheguei a descobrir que o número do SIF que continha numa caixa de ovos de galinha, era correspondente ao CNPJ de uma empresa que vendia leite. Ou seja, se eu estivesse procurando saber informações da vaca, eu teria na verdade da galinha. Moral da história: vaca põe ovo! Sei lá, às vezes isso possível, o mundo está tão moderno, está tudo tão pra frente...
Quando eu fiz essa “denúncia”, as pessoas no seminário ficaram boquiabertas como se eu tivesse falando uma grande novidade e, pra melhorar, o representante do ministério da agricultura, que estava atrás de mim, teve que encarar mais de 100 pessoas e dar as suas desculpas esfarrapadas. Depois da palestra, ele me procurou. Achei que fosse pra fazer ameaças, mas não, sugeriu que eu tomasse atitudes para denunciar melhor o fato. Respondi que eu não era fiscal e que a minha parte como um simples consumidor estava feita. Ele queria uma denúncia maior do que aquela? Que eu pregasse uma faixa no Cristo Redentor?
Neste mesmo congresso, numa palestra sobre suplementos, uma empresária estava esperneando com os seminaristas, de que se havia sódio no seu produto, ainda que em pequeníssima quantidade e se ainda era absorvido pelo organismo, porque ela não poderia incrementar no rótulo mais um nutriente? Esperta não! A Anvisa não admite isso. Ainda bem. Se permitisse todas as empresas declarariam um monte de nutrientes com relativas quantidades ínfimas e o consumidor acreditaria em estar se nutrindo com aquele catatau de nutrientes contidos no rótulo e servindo de marketing astuto. Esta mulher nunca se preocupou em ler as RDCs disponíveis no site da Anvisa. Essas coisas não a interessava.
Uma marca de achocolatado declarou no seu rótulo que sua nova formulação continha mais chocolate: estava “Power”! Comparei o antigo rótulo com o ‘Power’ e concluí que a quantidade de nutrientes não havia sido alterada. Como pode? Seria uma adição de chocolate psicológica?
Vegetal não tem colesterol. Isso é fato. Mas muita gente não sabe disso ainda. Sendo assim os fabricantes de óleo de soja, canola, girassol e outros, descobriram que se estampassem essa informação no rótulo poderiam aumentar o preço. Há rótulos de margarinas que declaram conter ômegas e ômegas que fazem bem para o coração. No entanto chamo atenção para um detalhe: para que o efeito da substância fosse desejável, o consumidor deveria comer o pote inteiro de uma só vez. Mas isso está escrito aonde?
Vivemos sob as leis do capitalismo onde não faz mal à ninguém ganhar mais dinheiro. Muitas empresas alteram sua estratégia de mercado que brinca com o psicológico do consumidor sem precisar mentir. Não há nada de errado na margarina com ômega três, na pasta de dente com açaí, em declarar que não há colesterol no óleo de soja, mas tem muitos fabricantes que extrapolam e enriquecem enganando as pessoas sem haver a mínima fiscalização competente pra isso. A meu ver, a Anvisa olha a boiada passar e não da conta. As melhores armas que o consumidor pode contar nestas horas, é a aquisição de informação e explorar ao máximo o que as escolas podem lhe dar, que é o conhecimento.
O óbvio no mercado dá muito dinheiro. E isso é tão óbvio que a gente acaba esquecendo que por trás de um produto há um vigoroso cardume faminto de tubarões brancos, muito dispostos a qualquer preço para se enriquecerem e gerarem descendentes férteis.
LFM
Um comentário:
Se eles são os tubaroes que geram descendentes férteis, acho q muitos de nós estão sendo usados como barrigas de aluguel.
Vlw
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